Nos anos de 1870 a 1890, em revistas dedicadas aos assuntos da LAVOURA são descritas situações de mortalidade de sobreiros em quantidades apreciáveis, sem contudo se verificarem quaisquer sinais de doença ou moléstia que possam ter contribuído para a morte do arvoredo. Dá-se também notícia que em determinado ano, muitos sobreiros da região da Chamusca e de Évora, perderam totalmente a folhagem no Outono, vindo a recuperá-la na Primavera seguinte. Estas anomalias não impediram que esta árvore perpetuasse até aos nossos dias nesses mesmos locais.
É a partir dos anos 50 do século passado que mais uma vez começam a surgir notícias em tudo idênticas às anteriormente referidas.
As décadas de 80 e 90 também do século passado, são ricas em relatos relativos à degradação dos montados, chegando mesmo a apontar causas e solicitando investigação para que seja encontrada a causa para a já denominada doença do sobreiro.
É de notar que em 1990 a consagrada revista “Wine and Spirit” publicam um artigo intitulado An Epitaph for Oak em que citava a descoberta de um ácaro ou afídeo designado de Primaprilia que em Portugal estava a matar os sobreiros e consequentemente as rolhas de cortiça tinham o seu fim à vista. Foi esclarecido posteriormente através do The Natural History Museum tratar-se de uma mentira do 1º de Abril.
Certamente que o autor da notícia teria os seus propósitos!
Posteriormente seguiram-se infinidades de notícias das quais destacamos o gosto da rolha ou T.C.A. e mais recentemente merece-nos também destaque o fungo denominado Phytophtora cinnamomi que um pequeno grupo de investigadores tem apontado ou apontou, como responsável pela morte dos sobreiros.
Atentos à situação, no final da década de 80, princípios de 90 a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Santiago do Cacém dispôs-se a comparticipar financeiramente num projecto para encontrar uma solução que travasse a degradação que estava a afectar os montados daquela zona. Assim foi concebido um projecto denominado. “Determinação das causas da morte dos sobreiros na Região de Santiago do Cacém” em parceria com aquela Instituição a Direcção Geral das Florestas e a Estação Florestal Nacional. Foi constituída uma equipa multidisciplinar (ecologia, solos, pragas, doenças, fisiologia, etc. …) com investigadores dos departamentos citados a que se juntaram outros da Universidade de Évora.
O estudo devidamente coordenado foi executado e concluído, descrevendo causas e apontando soluções, Elaborou e publicou um relatório, mas que volvidos 20 anos é praticamente ignorado e os intervenientes continuam a esperar o aparecimento de uma receita milagrosa que venha curar a doença dos sobreiros.
Mais recentemente a Universidade de Évora e também através de um equipa multidisciplinar executou um outro projecto denominado de AGRORREG, que de forma diferente e mais aprofundada chegou a conclusões que lhe permitiram enumerar causas e apontar soluções em grande parte semelhantes ás de Santiago do Cacém.
Estes, são dois factos inquestionáveis que em termos técnicos e científicos demonstram existir no país conhecimento suficiente para se poder intervir na grande maioria das situações, desde que o proprietário da floresta acredite nas soluções e tenha possibilidades de intervir.
Mas, se em termos técnicos e científicos se sabe o suficiente para resolver algumas situações, o mesmo não acontece economicamente e para uma grande maioria de propriedades. Cito a título de exemplo a zona de Almodôvar e Serra do Caldeirão (incêndio de 2003) e Serras de Portel e de Grândola. Nestas Zonas a maioria da área é de pequena propriedade e os proprietários não estão em condições económicas de suportar os elevados custos de recuperação, esperar 40 anos pelas primeiras receitas e correr o grave risco dos incêndios florestais.
É também uma realidade que para estas zonas e muitas outras abandonadas pela agricultura, mas com aptidão para a floresta, não existem espécies alternativas ao sobreiro e azinheira.
A tudo isto acrescem as alterações climáticas cujo primeiro efeito se faz já sentir na irregularidade cada vez maior das precipitações que produzem períodos de seca mais prolongados.
Procurei essencialmente levantar grandes questões para reflexão e debate na convicção de serem encontradas formas de actuação que permitam que estas espécies - sobreiro e azinheira - com inquestionável importância na economia da Exploração, na Regional e na Nacional possam ser geridas de forma sustentável continuando a evitar o avanço da desertificação.