Num mundo em rápida mutação com desenvolvimentos influenciados por um sem número de factores, a fileira da cortiça não tem capacidade para assegurar, no seu conjunto, o adequado acompanhamento em consequência de alguns imobilismos de natureza estrutural, legal e histórica, e ausência de visão estratégica.
Há mais de 100 anos que os montados de sobro são sujeitos a uma exploração intensiva, verificando-se uma tendência acentuada para a diminuição da produção de cortiça, degradação de algumas zonas por causas diversas, como sejam as alterações climáticas com o inevitável avanço da desertificação, a ausência de gestão e mesmo em consequência de situações de guerra, como sucedeu na Argélia.
Pode hoje assumir-se que a produção mundial de cortiça tem vindo a diminuir em quantidade e qualidade, estimando-se a produção mundial actual em 220.000 toneladas de cortiça amadia, o que representa uma redução da ordem dos 40%, comparativamente com a produção de 1970.
Com excepção da Estremadura espanhola, todas as restantes regiões suberícolas estão em decréscimo de produção.
Simultaneamente, a qualidade das cortiças vem conhecendo uma evolução similar sendo crescentes as zonas em que a questão da viabilidade económica dos montados está posta em causa, dado o baixo valor atribuído a essas cortiças e o aumento dos custos de manutenção e exploração.
QUE REALIDADES E QUE SOLUÇÕES?
Como se espera o regresso de D. Sebastião da sua campanha do Norte de África, de igual modo, depois de Governos e responsáveis Ministeriais de todas as tendências, se aguarda, julgamos que já sem esperança, uma política da Administração que manifeste a vontade política de compreender a importância económica, ecológica e social da fileira da cortiça.
A esta constatação, junta-se uma produção suberícola tradicionalmente individualista e um sector industrial crescentemente concentrado e com significativos desníveis de organização industrial e comercial.
Entendemos, assim, que será muito pouco provável encontrar uma solução que permita inverter esta situação e, consequentemente, as desagradáveis realidades que daí advirão.
A Administração tem responsabilidades acrescidas, no tocante à legislação que condiciona a exploração dos montados, e não pode distanciar-se do problema como se de um ente “estranho” se tratasse. Do mesmo modo, não pode subestimar a contribuição da fileira para o emprego e as exportações.
Deve assumir-se que a gestão dos montados só agora está sujeita à apresentação de um Plano de Gestão, que poderá ser um factor positivo para o seu futuro nos anos mais próximos se, entretanto, houver acompanhamento na sua execução e, principalmente, a motivação dos proprietários, o que só poderá provir do rendimento económico dos produtos dos montados em que a cortiça tem uma contribuição decisiva.
AS CORTIÇAS DENOMINADAS “FRACAS”
Trata-se no imediato dum problema que exige uma busca de soluções alternativas à rolha de cortiça de modo a maximizar o seu valor com novas soluções técnicas e tecnologias inovadoras.
Na actual situação, não há alternativas e assistir-se-á a um decréscimo acentuado do seu valor.
Não pode a produção esperar que outros, com estratégias coerentemente ajustadas aos seus legítimos interesses, sejam responsáveis por iniciativas que promovam a valorização dessas cortiças, que devem ser assumidos pela produção, liderando um projecto inovador que abra novas oportunidades a essa matéria-prima, através de apoios comunitários e à comunidade científica nacional com recursos humanos e tecnológicos.
Deixo como testemunho final, um conjunto de ideias que consideramos realistas mas que poderão abrir a porta a oportunidades de reflexão e de decisão.